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Domingo, Outubro 30, 2005
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No dia seguinte, domingo, eu estava em meu quarto estudando para o exame de admissão da Universidade da Carolina do Norte. Eles tinham exigido cinco redações sobre temas habituais:"Se você fosse um personagem da história, quem seria, e por quê?"; "Qual a influência mais importante em sua vida?"; "O que você procura num modelo exemplar, e por quê?"
As questões eram razoavelmente previsíveis - nossa professora de inglês nos alertara sobre o que esperar. Eu tinha trabalhado em duas variações na sala de aula.
Inglês era na certa a minha melhor matéria. Nunca recebi nada inferior a um A desde que entrei na escola, e fiquei feliz porque a ênfase no exame vestibular era em redação. Se tivesse sido em matemática, eu teria ficado em apuros. Não que eu fosse tão ruim assim - em geral, tirava no mínimo um C -, mas não era uma disciplina em que me visse à vontade, se entendem o que quero dizer.
Assim, eu escrevia um dos meus ensaios quando o telefone tocou. O único aparelho que tínhamos ficava na cozinha, por isso tive de descer correndo a escada para atender. Ofegante, não percebi muito bem de quem era a voz, embora parecesse a de Ângela. Sorri para mim mesmo. Embora o episódio desagradável da sujeira no banheiro ainda estivesse bem vivo em minha mente, ela era de fato uma pessoa muito divertida como companhia. Imaginei que provavelmente me ligava para agradecer, ou talvez sairmos e comermos um sanduíche de filé.
- Landon?
- Oh, olá - eu disse, bancando o distante. - O que houve?
Fez-se uma breve pausa na outra ponta da linha.
- Como vai você?
Foi então que percebi que não estava falando com Ângela. Era Jamie. Não posso dizer que tenha ficado feliz ao ouvir a voz dela. Quase larguei o telefone.
- Landon?
- Vou bem - deixei escapar por fim, ainda em choque.
- Está ocupado?
- Mais ou menos.
- Oh...entendo... - disse ela, a voz sumindo. Fez mais uma pausa e levou alguns segundos para proferir as palavras. - Eu só queria saber se você poderia aparecer hoje mais tarde.
- Aparecer?
- Sim. Em minha casa.
- Sua casa?
Não tentei sequer disfarçar a surpresa cada vez maior na voz. Ignorando, Jamie continuou:
- Preciso falar uma coisa com você. Eu não pediria se não fosse importante.
- Não pode me dizer pelo telefone?
- Eu preferiria pessoalmente.
- Bem, é que estou trabalhando em minhas redações esta tarde.
- Oh...bem. Como eu disse, é importante, mas acho que posso conversar com você segunda-feira na escola.
De repente, compreendi que ela não ia me livrar da fria, e que acabaríamos conversando de um modo ou de outro. Meu cérebro esquadrinhou imagens dos roteiros possíveis, enquanto tentava imaginar o que era melhor, falar com ela onde meus amigos me vissem ou falar com ela em casa. Embora nenhuma das opções fosse particularmente boa, alguma coisa no fundo da minha mente me fazia recordar que jamie me tirara de uma enrascada quando eu precisara. O mínimo que podia fazer era ouvir o que ela tinha a dizer. Posso ser irresponsável, mas sou um irresponsável bom, se posso dizer isso eu mesmo. Claro que não significava que todos os demais tivessem de saber.
- Não - eu disse. - Hoje está bem.
Combinamos nos encontrar às 5:00h da tarde. O resto das horas tiquetaqueou devagar, como as gotas d'água da tortura chinesa. Saí de casa vinte minutos antes, a fim de ter tempo de sobra pra chegar lá. Minha casa dava para a costa e ficava na parte histórica da cidade, a algumas portas de onde morara o Barba Negra. Jamie vivia no outro lado da cidade, atravessando os trilhos da ferrovia.
Era novembro e a temperatura começava afinal a cair. Uma das coisas que eu realmente gostava em Beaufort era o fato de as primaveras e outonos durarem quase uma eternidade. Podia haver um dia muito quente ou nevar uma vez a cada seis anos, mas na maior parte do tempo a gente só precisava de um casaco leve para agüentar até o fim do inverno. Esse era um daqueles dias perfeitos - temperatura em torno de 11°C, nem uma nuvem no céu.
Cheguei à casa de Jamie na hora e bati à porta. Ela atendeu e com um rápido lance de olhos para dentro mostrou que Hegbert não se achava presente. Não estava quente o bastante para um refresco, portanto nos sentamos mais uma vez na varanda, sem nada para beber. O sol começava a baixar no céu e não se via vivalma na rua. Dessa vez não precisei afastar a cadeira. O móvel não mudara de lugar desde a última vez que estivera lá.
- Obrigada por ter vindo, Landon. Sei que está ocupado, mas agradeço ter interrompido seu trabalho para vir até aqui.
- Então, o que há de tão importante?
Pela primeira vez desde que eu a conhecera, jamie parecia de fato nervosa ao meu lado. Não parava de esfregar e soltar as mãos.
- Eu queria lhe pedir um favor - ela disse, séria.
- Um favor?
Ela confirmou com a cabeça.
A princípio, pensei que ia me pedir para ajudá-la a decorara a igreja, como propusera no baile antes das férias. Ou então, como ainda não tinha carteira de motorista, talvez precisasse de mim para levar algum donativo para os órfãos.
Ela suspirou.
- Eu gostaria de perguntar se você se incomodaria de fazer o papel de Tom Thornton na peça da escola.
Tom Thornton, como eu já disse, era o homem à procura da caixa de música para f ilha - o que se encontra com o anjo. Fora o anjo, era de longe o papel mais importante.
- Bem, não sei - respondi, confuso. - Achei que Eddie Jones ia ser Tom. Foi o que a Srta. Garber nos disse.
Eddie Jones lembrava muito Carey Dennison. Esquelético, com espinhas por todo o rosto. Tinha um tique nervoso e não conseguia impedir que os olhos envesgassem sempre que ficava agitado, o que era quase o tempo todo.Na certa acabaria esticando suas falas como um cego psicótico se fosse posto diante de uma multidão. Para piorar tudo, também tinha gagueira. A Srta. Garber lhe dera o papel porque ele fora o único que se oferecera.
- A Srta. Garber não disse exatamente isso. O que disse foi que Eddie podia ficar com o papel se ninguém mais se candidatasse.
- Então outra pessoa pode faze-lo?
Mas eu sabia que não havia outra pessoa. Devido à exigência de hegbert de que só os formandos representassem, a peça naquele ano estava complicada. Dos cinqüenta alunos do último período no ginásio, não menos que 22 estavam no time de futebol e, como ainda disputavam o título estadual, nenhum deles teria tempo de participar dos ensaios. Dos menos de trinta restantes, mais da metade fazia parte da banda e tinha ensaio depois das aulas. Um rápido cálculo mostrava que nem sequer dez pessoas que pudessem fazer o papel.
Ora, que não queria fazer a peça, e não apenas porque passara a achar que o teatro era a aula mais chata já inventada. O negócio era que eu já levara jamie ao baile de fim de ano. E como ela faria o anjo na peça, a idéia de passar todas as tardes ao seu lado durante quase todo o mês seguinte me apavorava. Ficar com ela uma vez fora ruim; o que dizer de todos os dias? O que diriam meus amigos?
Mas vi que isso realmente importava para ela. O simples fato de me pedir o deixou muito claro. Jamie jamais pedira nada a ninguém. Acho que lá no seu íntimo desconfiava que ninguém jamais lhe faria um favor, por ela ser quem era. A própria compreensão disso me entristeceu.
- E Jeff Bangert? Ele poderia fazer o papel - sugeri.
Jamie fez que não com a cabeça.
- O pai dele está doente. Jeff tem de trabalhar na loja depois da escola até ele ter alta.
- E Darren Woods?
- Quebrou o braço semana passada. Está com uma tipóia.
- É mesmo? Eu não sabia - comentei, tentando ganhar tempo.
- tenho rezado por ele, Landon - disse Jamie, suspirando pela segunda vez. - Eu gostaria que a peça fosse especial este ano, não por mim, mas por causa do meu pai. Quero que seja a melhor produção que já houve. Sei o que significa para ele me ver no papel do anjo, porque essa peça o faz lembrar da minha mãe. - Fez uma pausa, reunindo os pensamentos. - Seria terrível se a encenação deste ano fosse um fracasso, sobretudo porque estou envolvida. - Ela fez outra pausa breve, o tom de voz cada vez mais emocionado. - Sei que Eddie faria o melhor que pudesse. E não estou sem graça de fazer a peça com ele; é uma pessoa muito boa. Mas ele me confessou que estava pensando se deveria ou não aceitar o papel. Às vezes o pessoal da escola é muito...muito cruel. E não quero que Eddie seja magoado. Mas... - Ela respirou fundo. - Mas o verdadeiro motivo de eu estar lhe pedindo isso é por causa do meu pai. Ele é um homem bom, Landon. Se as pessoas ridicularizarem a lembrança de minha mãe enquanto eu estiver representando...bem, isso me deixaria com o coração arrasado. E com Eddie junto comigo você sabe o que as pessoas iriam dizer.
Concordei com a cabeça, sabendo que eu seria uma dessas pessoas de quem ela falava. Na verdade, já era. Jamie e Eddie, a dupla dinâmica, chamamos os dois depois que a Srta. Garber anunciara isso quase me fez sentir náuseas no estômago.
Ela empertigou-se um pouco na cadeira e me olhou com tristeza, como se já soubesse que eu ia dizer não. Continuou:
- Sei que desafios fazem parte dos desígnios do Senhor, mas não quero acreditar que o Senhor seja cruel, sobretudo com alguém como meu pai. Ele dedica a vida a Deus; se dá à comunidade. E já perdeu a mulher e teve de me criar sozinho. E eu o amo tanto por isso...
Jamie virou o rosto, mas vi lágrimas em seus olhos. Era a primeira vez que eu a via chorar, e parte de mim sentiu vontade de fazer o mesmo.
- Não estou pedindo por mim - continuou ela, baixinho. - Não estou. E se recusar, vou continuar a rezar por você. Prometo. Mas não gostaria de fazer uma coisa bondosa para um homem maravilhoso que significa tanto pra mim...Poderia ao menos pensar nisso?
O olhar de jamie parecia o de um cocker spaniel que acabara de fazer sujeira no tapete.
Baixei os olhos.
- Não preciso pensar - acabei dizendo, - Vou fazer.
Não tive realmente escolha, tive?
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Oi, gente.
Eu gostaria de pedir UM MILHÃO de desculpas por não ter atualizado o blog, nem respondido scraps e e-mails.
Todo mundo tem uma época na vida que vê o tempo se esvaindo entre os dedos.
Estou passando por isso tbm.
Então, peço que não tenham pressa e quem tiver, mil desculpas, mas vai ter que procurar outra forma de pegar o livro (não, não quero ser mal educada, apenas estou respondendo no nível que algumas pessoas que não me conhecem e que têm me cobrado merecem).
Alguns dados sobre o livro que são perguntados freqüentemente:
Ele se chama UM ANO INESQUECÍVEL e foi escrito por Nicholas Sparks (Diário de Uma Paixão e Uma Carta de Amor).
O livro que eu possuo é uma edição com mais 3 obras de outros artistas estrangeiros da coleção "Seleções" da Reader's Digest.
O que eu tenho foi comprado no MercadoLivre.com, mas algumas pessoas me disseram que pode ser encontrado em sebos. Essa é a sugestão que eu dou pra todo mundo: caçar em sebos!
Espero que possa ter ajudado/contribuído em alguma coisa, tá? ;-)
E mais uma vez, desculpem-me e compreendam-me!!!
Comentários:
Se perdeu algum capítulo, ou quiser alguma outra informação, me mande um e-mail: irene.tozzi@gmail.com
Embora Jamie nunca tivesse ido a um baile de fim de ano, freqüentara muitos bailes de igreja antes. Não era uma dançarina ruim - eu também tinha ido a alguns daqueles arrasta-pés e a vira -, mas, para ser franco, era muito difícil julgar como ela se sairia com alguém como eu. Nas festas de dança da igreja, sempre dançava com os velhos, pois ninguém da sua idade a tirava, e ela era boa mesmo em danças que haviam sido populares uns trinta anos antes. Honestamente, eu não sabia o que esperar.
Reconheço que também tive algumas preocupações quanto ao que ela iria vestir. Quando Jamie ia nos bailes da igreja, em geral usava um suéter velho e uma das saias escocesas que víamos na escola todos os dias, mas o baile de fim de ano deveria ser especial. A maioria das garotas comprava vestidos novos e os garotos usavam ternos. Eu sabia que ela não ia comprar um vestido novo porque não era exatamente rica. O sacerdócio não era uma profissão em que as pessoas ganhavam muito dinheiro. Mas também não queria que ela usasse a mesma roupa da escola. Não tanto por mim - não sou assim tão pouco solidário -, mas pelo que os outros poderiam dizer. Eu não queria que as pessoas a ridicularizassem.
A boa notícia, se alguma houve, foi que Eric não me gozou muito por toda situação com Jamie, pois estava ocupado demais pensando em seu próprio par. Ia levar Margaret Hays, a líder de torcida da nossa escola. Ela não era a lâmpada mais brilhante na árvore de Natal, mas era bonita à sua maneira. Quando digo bonita, claro, refiro-me às pernas. Eric ofereceu-se para fazer par duplo, mas recusei, porque não queria correr o risco de vê-lo provocando jamie. Ele era um sujeito bom, mas às vezes impiedoso, sobretudo depois de algumas doses de conhaque.
O dia do baile foi realmente muito movimentado para mim. Passei a maior parte da tarde ajudando a decorar o ginásio e tive de chegar à casa de Jamie meia hora antes, porque o pai dela queria falar comigo. Ela me avisara de supetão na véspera, e não posso dizer que fiquei exatamente emocionado com a perspectiva. Imaginei que ele me falaria sobre o caminho diabólico a que a tentação pode nos levar. Se, contudo, abordasse o tema da fornicação, eu sabia que iria cair morto ali mesmo. Fiz pequenas orações durante o dia todo na esperança de evitar essa conversa, mas não tinha certeza de que Deus daria preferência às minhas preces, considerando o modo como me comportara no passado.
Após tomar uma chuveirada, pus o meu melhor terno, passei pela florista para pegar o pequeno buquê-broche de Jamie e segui no carro que tomei emprestado de minha mãe até a casa dela. Parei diante da entrada da garagem e fui até a porta; Bati e esperei algum momento. Ouvi hegbert dizer:
- Já vou.
Mas não veio exatamente correndo. Devo ter ficado ali parado por uns dois minutos, olhando para a porta, as molduras, as pequenas fendas nos peitoris.
Por fim, a porta se abriu com um rangido. A luz vinda de um abajur de dentro sombreava ligeiramente o rosto de Hegbert. Ele era velho, 72 anos pelos meus cálculos. Era a primeira vez que o via assim tão de perto; observei então todas as rugas do seu rosto. Ele tinha a pele translúcida mesmo, ainda mais do que imaginava.
- Como vai, reverendo? - cumprimentei-o, sufocando minha agitação. - Vim buscar Jamie para o baile de fim de ano.
- Claro. Mas primeiro eu queria conversar com você.
- Sim, senhor. Por isso cheguei mais cedo.
- Entre.
Na igreja, Hegbert era muito elegante, mas naquele instante, de macacão e camiseta por baixo, parecia um camponês. Fez um gesto para que eu me sentasse na cadeira de madeira que trouxera da cozinha.
- Desculpe por demora um pouco para abrir a porta. Eu estava trabalhando no sermão de amanhã.
Sentei-me.
- Não faz mal, senhor.
Não sei bem por quê, mas a gente simplesmente tinha de chamá-lo de senhor. Ele de certa forma projetava essa imagem.
- Então, muito bem, fale-me um pouco de você.
Achei o pedido absolutamente ridículo, em vista da longa história que ele tinha com a minha família e tudo mais.Também fora ele quem me batizara, por falar nisso, e vira-me na igreja todo domingo desde que eu era bebê.
- Bom, senhor - comecei -, sou o presidente do conselho estudantil. Não sei se Jamie já lhe contou.
E fez que sim com a cabeça.
- Contou, sim. Continue.
- E...bem, espero ir para a Universidade da Carolina do Norte no próximo outono. Já recebi o formulário de matrícula.
Ele assentiu mais uma vez com a cabeça.
- Mais alguma coisa?
Tenho que admitir que não restava muito mais o que dizer depois disso. Parte de mim queria pegar o lápis na ponta da mesa para equilibra-lo na ponta do indicador, durante a marca assombrosa de trinta segundos, mas ele não era o tipo do sujeito que apreciaria tal habilidade.
- Acho que não, senhor.
- Importa-se que eu lhe faça uma pergunta?
- Não, senhor.
Ele meio que me encarou por um longo tempo, como se pensasse no que dizer.
- Por que convidou minha filha para o baile? - acabou perguntando.
Fiquei surpreso, sabendo que minha expressão revelava isso.
- Não sei o que dizer, senhor.
- Não está planejando embaraçá-la, está?
- Não, senhor - apressei-me a dizer, chocado pela acusação. - Eu precisava de alguém para ir comigo e a convidei. Só isso.
- Não planejou nenhuma brincadeira de mau gosto?
- Não, senhor. Eu não faria isso com ela.
A coisa prosseguiu por mais uns dois minutos, ou seja, um interrogatório cerrado sobre minhas verdadeiras intenções. Por sorte, porém, jamie saiu do quarto dos fundos, fazendo com que girássemos a cabeça em direção a ela no mesmo instante. Hegbert parou finalmente de falar e soltei um suspiro de alívio. Ela vestia uma saia azul muito bonita e uma blusa branca que eu nunca vira antes. Graças a Deus, deixara o suéter no armário.Tive de admitir que as roupas que usava não estavam assim tão ruins, embora soubesse que continuava mal vestida em comparação às demais no baile. Como sempre, tinha os cabelos presos num coque. Pessoalmente, acho que ficariam mais bonitos se os deixasse soltos, mas era a última coisa que eu sugeriria naquele momento. Jamie estava...bem, exatamente como em geral era, mas pelo menos não levaria a Bíblia sob o braço.
- Não está fazendo Landon passar por maus bocados, está? - ela perguntou, rindo ao pai.
- A gente só estava conversando - apressei-me em dizer, antes que ele tivesse a chance de responder.
- Bem, acho que já é hora de irmos. - disse Jamie, após um momento. Creio que sentiu a tensão na sala. Aproximou-se do pai e deu-lhe um beijo no rosto. - Não fique acordado até muito tarde trabalhando no sermão, está bem?
- Não, não vou ficar - disse ele, com carinho.
Vi que o pai realmente a amava e não receava demonstra-lo, mesmo comigo na sala. O problema era como se sentia em relação a mim.
Despedimo-nos e, a caminho do carro, entreguei a Jamie o pequeno buquê dizendo-lhe que mostraria como usá-lo assim que embarcássemos. Abri a porta para ela, contornei o automóvel até o outro lado, entrando em seguida. Nesse breve período de tempo, Jamie já prendera a flor.
- Não sou exatamente uma idiota, sabe? Sei como prender um buquê na roupa.
Dei partida e seguimos para o ginásio. Eu ainda trazia na mente a conversa que acabara de ter com o pai dela.
- Meu pai não gosta muito de você - ela comentou, como se soubesse o que estava pensando.
Fiz que sim com a cabeça, sem nada dizer.
- Ele o considera um irresponsável e também não gosta muito do seu pai.
Assenti mais uma vez.
- Nem da sua família.
Entendi o quadro.
- Mas sabe o que acho? - ela perguntou, de repente.
- Na verdade, não - A essa altura, eu estava muito deprimido.
- Acho que, de algum modo, isso estava nos desígnios do Senhor.O que acha que essa mensagem significa?
"Lá vamos nós", pensei.
Duvido que a noite pudesse ter sido muito pior. A maioria dos meus amigos manteve-se a distância e, para começar, Jamie não tinha muitos amigos, por isso passamos a maior parte do tempo sozinhos. Pior ainda, acabei sabendo que minha presença nem sequer era mais necessária. Mudaram a regra, devido ao fato de Carey não ter conseguido um par, o que me deixou muito infeliz com coisa toda. Mas depois do que o pai da Jamie me dissera, eu não podia exatamente leva-la para casa cedo, podia? E mais: ela estava se divertindo a valer, verdade. Adorou os enfeites da decoração que ajudei a pendurar; adorou a música; adorou tudo na festa. Perguntou-me se eu poderia ajuda-la um dia a decorar a igreja para uma das suas festas. Resmunguei que ela me telefonasse e, embora tenha dito isso sem o menor traço de entusiasmo, ela me agradeceu por ser tão prestativo. Para ser franco, fiquei deprimido, no mínimo durante a primeira hora, embora ela não parecesse notar.
Jamie tinha de chegar em casa às 11:00h, uma hora antes do baile terminar, o que de certa forma tornava tudo mais fácil para mim. Assim que a música começou chegamos ao salão, e o que aconteceu foi que ela era uma dançarina muito boa - melhor até que muitas das outras - e isso ajudou a passar o tempo. Acompanhou-me muito bem numa dezena de músicas, após o que nos encaminhamos para as mesas e tivemos o que se assemelhou a uma conversa comum. Claro, ela disparou palavras como fé, alegria e salvação, falou em ajudar os órfãos, mas estava tão feliz da vida que era difícil continuar deprimido por muito tempo.
Portanto, as coisas não foram tão terríveis a princípio. Foi só quando apareceu Lew, o namorado de Ângela, que tudo azedou.
Ele usava mais uma vez aquela camiseta idiota, o maço de Camel na manga e uma boa porção de brilhantina na cabeça. Ângela babava-o todo; não era necessário ser um gênio para perceber que ela tomara umas e outras. Usava um vestido de fato espalhafatoso. Notei que adquirira aquele hábito de mulher elegante chamado "mascar chiclete". Trabalhava realmente o chiclete, mascando-o quase como uma vaca que rumina.
Ora, o bom e velho Lew "batizara" a poncheira com álcool; outras pessoas também começaram a ficar ligeiramente embriagadas. Quando os professores descobriram, a maior parte do ponche já se fora e o pessoal já apresentava aqueles olhos vítreos característicos. Para Ângela, por sinal, só bastava mais um drinque. Quando a vi sorver com sofreguidão a segunda taça de ponche, notei que teria de manter os olhos longe dela.
Embora Ângela tivesse me dado o fora, eu não queria que nada de ruim lhe acontecesse. Foi a primeira garota que eu beijei de língua e ainda sentia alguma coisa por ela.
Portanto, lá estava eu, sentado com jamie, mal prestando atenção às suas descrições das maravilhas da Escola Bíblica enquanto observava Ângela de canto de olho, quando Lew me flagrou. Num movimento frenético, ele a agarrou e arrastou para a mesa, lançando-me um daqueles olhares que significam coisa séria. Vocês sabem do que estou falando.
- Está encarando a minha namorada? - ele perguntou, já se retesando.
- Não.
- É, estava sim - disse Ângela, já com a fala meio pastosa. - É meu ex-namorado, aquele de quem lhe falei.
Os olhos de Lew transformaram-se em duas fendas.
- Então você é o tal.
Ora, não sou bem um lutador. Em geral, não era um grande problema para mim ficar longe de coisas como essa, por causa da minha natureza passiva e, além disso, ninguém se metia comigo quando Eric se achava por perto. Mas Eric estava lá fora com Margaret, na certa atrás das arquibancadas do campo de esportes, fora das vistas.
- Eu não estava encarando ninguém - acabei dizendo - e não sei o que ela contou a você, mas duvido que seja verdade.
Lew estreitou os olhos
- Tá chamando Ângela de mentirosa?
Acho que ele teria me acertado ali mesmo, mas de repente Jamie conseguiu interferir na situação.
- Eu não conheço você? - ela perguntou, sorrindo, fitando-o direto nos olhos. Às vezes parecia alheia a situações que ocorriam bem a sua frente. - Espere...Conheço, sim. Você trabalha na garagem do centro, não? Seu pai se chama Joe e sua avó mora ali na Foster Road, perto do cruzamento da ferrovia.
Um ar de confusão estampou-se na cara de Lew.
- Como é que sabe disso? Que foi que ele fez, também falou de mim a você?
- Não - disse Jamie -, não seja bobo. Vi sua foto na casa da sua avó. Eu ia passando e ela precisava de ajuda para levar as sacolas da mercearia. Sua foto estava no console da lareira.
Lew olhava Jamie como se visse dois pés de milho crescendo dos ouvidos dela.
Enquanto isso ela se abanava com a mão.
- Bem, a gente tinha acabado de se sentar para recuperar o fôlego depois de toda essa dança. Está quente mesmo aqui. Gostaria de se juntar a nós? Eu adoraria saber como tem passado a sua avó.
Ela parecia tão feliz que Lew não soube o que fazer. Ao contrário de nós, que estávamos acostumados com jamie, ele jamais conhecera alguém assim. Ficou parado um ou dois minutos, como a tentar decidir se acertava o sujeito que estava com a garota que ajudara a avó dele. Acabou por afastar-se, meio de fininho, sem nada responder, e levando Ângela.
Jamie e eu o vimos ir embora e, quando ele chegou a uma distância segura, exalei. Nem me dera conta de que estivera prendendo a respiração.
- Obrigado - resmunguei sem graça, compreendendo que fora Jamie - Jamie! - quem me salvara de graves danos físicos
- Ela me olhou perplexa.
- Por quê? - perguntou e, como eu não lhe explicasse tintim por tintim, ela retornou direto à história da Escola Bíblica, como se nada, em absoluto, houvesse acontecido. Mas dessa vez vi-me prestando atenção, pelo menos com um dos ouvidos. Era o mínimo que eu podia fazer.
Acontece que não foi a última vez que vimos Lew e Ângela naquela noite. As duas taças de ponche acabaram mesmo derrubando Ângela e ela vomitou por todo o banheiro feminino. Lew, sendo o sujeito de classe que era, apavorou-se quando ouviu os engulhos da moça saindo meio furtivamente por onde entrara; foi a última vez que o vi. Jamie, quis a sorte, foi quem a encontrou bêbada no banheiro e, mesmo para ela, ficou óbvio quer Ângela não estava muito bem. A única opção era limpa-la e leva-la para casa antes que os professores descobrissem. Embriagar-se era uma coisa muito séria na época. Ângela enfrentaria uma suspensão, talvez mesmo expulsão, se fosse flagrada.
Jamie - abençoada seja - que, como eu, não queria que isso acontecesse, se encarregou imediatamente da situação. Acabamos localizando Eric atrás das arquibancadas e o convencemos a montar guarda na porta do banheiro enquanto Jamie e eu entrávamos para deixá-lo em ordem. Vou contar uma coisa. Ângela fizera um trabalho maravilhoso. Tudo estava sujo - paredes, piso, pias. Assim, lá estava eu, de quatro, limpando dejetos no baile de fim de ano, envergando meu melhor terno - justo o que eu queria evitar desde o começo. E Jamie, meu par, também de quatro, fazia exatamente a mesma coisa.
Eu quase ouvia a gargalhada esganiçada e maníaca de Carey Dennison, ressoando ao longe.
Acabamos saindo sem ser vistos pela porta dos fundos do ginásio, com Ângela imprensada entre nós. Ela não parava de perguntar onde estava Lew, mas Jamie disse que não se preocupasse. Tinha um jeito genuinamente tranqüilizador de se dirigir a ela, embora eu duvide que Ângela naquele momento tivesse sequer idéia de quem lhe falava. Nós a descarregamos no banco traseiro do meu carro, onde ela desmaiou quase de imediato. Quando chegamos à casa dela, a mãe abriu a porta, olhou para a filha e levou-a para dentro sem uma única palavra de agradecimento. Acho que dicou envergonhada, e nós de fato não tínhamos muito o que dizer. A situação pó si só já era bastante eloqüente.
Eram 10:45h quando deixamos Ângela em casa. Depois seguimos direto para a casa de jamie. Fiquei realmente preocupado quando chegamos lá, por causa da aparência e do cheiro dela. Fiz uma prece em silêncio, torcendo para que Hegbert não estivesse acordado. Não queria ter de explicar a ele. Ah, ele na certa ouviria Jamie se fosse ela quem lhe contasse, mas me bateu um sentimento de prostração, pois ele encontraria de qualquer modo um meio de me acusar.
Então eu a acompanhei até a porta, e ficamos do lado de fora, à luz da varanda. Jamie cruzou os braços e sorriu um pouco, como se tivesse acabado de chegar apenas de um passeio noturno.
- Por favor, não conte ao seu pai - pedi.
- Não vou contar. Eu me diverti muito esta noite. Obrigada por me levar ao baile.
Ali estava ela, coberta de vômito, a me agradecer pela noite. Jamie Sullivan às vezes deixava a gente realmente com cara de bobo.
Nas duas semanas que se seguiram ao baile de fim de ano, minha vida voltou inteiramente ao normal. Meu pai regressara a Washington, o que tornava tudo muito mais divertido em casa, sobretudo porque eu podia sair pela janela sem ser visto e rumar para o cemitério, ao encontro das aventuras tarde da noite. Sinceramente, não sei o que havia no cemitério que tanto nos atraía. Talvez tivesse a ver com as próprias lápides, que, como lápides eram muito confortáveis para a gente se sentar.
Em geral nos sentávamos num pequeno lote onde a família Preston fora enterrada uns cem anos antes. Eram oito lápides ali, todas distribuídas num círculo, facilitando a passagem do amendoim cozido e conversando de um lado para o outro entre nós.
Bem, num sábado à noite Eric e eu lá estávamos com os outros dois amigos, comendo amendoim cozido e conversando quando ele perguntou como fora meu ¿encontro¿ com jamie Sullivan. Ele e eu não nos havíamos visto com muita freqüência desde o baile, porque a temporada de futebol já se achava nas eliminatórias e Eric andara fora da cidade nos últimos dois fins de semana.
- Foi legal ¿ eu disse, encolhendo os ombros, tentando me fazer de indiferente.
Eric deu-me uma cotovelada jocosa nas costelas.
- Você a beijou?
- Não.
Ele sorveu um gole prolongado da lata de Budweiser quando respondi. Não sei como Eric conseguia, mas ele nunca teve problemas para comprar cerveja, o que era estranho, pois todo mundo sabia a idade dele.
Ele enxugou os lábios com as costas das mãos e lançou-me um olhar de lado.
- Eu imaginava que depois de ajuda-lo a limpar o banheiro, você pelo menos lhe tivesse dado um beijo de boa-noite.
- Bem, não dei.
- Por que não?
- Ela não é desse tipo ¿ respondi.
Embora todos soubéssemos que era verdade, continuou parecendo que eu a defendia.
Eric aferrou-se a isso como uma sanguessuga.
- Acho que você gosta dela. Acho que se apaixonou loucamente por ela.
Eu sabia que pisávamos em terreno perigoso.
- Eu só a estava usando para impressionar Margaret ¿ falei. ¿ E com todos os bilhetes de amor que ela tem me enviado ultimamente, admito que deu certo.
Eric riu alto, batendo-me mais uma vez nas costas.
- Você e Margaret...ora, isso é engraçado.
Eu sabia que tinha acabado de me livrar de uma barra pesada; suspirei de alívio quando a conversa desviou e tomou outro rumo. Eu entrava no papo vez por outra, mas não prestava atenção ao que eles diziam. Em vez disso, não parava de ouvir a vozinha dentro de mim que perguntava o que Eric quisera insinuar.
O fato era que Jamie talvez fosse a melhor companhia que poderia ter arranjado naquela noite, sobretudo em vista de como tudo terminara. Poucas garotas teriam feito o que ela fez. Ao mesmo tempo, o fato de ela ser um bom par não queria dizer que eu gostasse dela. Não falara com ela desde o baile, a não ser quando a vira no curso de teatro. Se por acaso gostasse dela, disse a mim mesmo, teria desejado lhe falar. Se gostasse, teria me oferecido para acompanha-la enquanto caminhava até sua casa, para leva-ala ao Cecil¿s Diner para uns salgadinhos e uma Coca-Cola. Mas não desejara fazer nenhuma dessas coisas. Não mesmo. Em minha mente, já tinha expiado minha penitência.
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No ano anterior passei a sair com uma garota chamada Ângela Clark, que foi minha primeira namorada de verdade, embora o caso só tenha durado alguns meses. Pouco antes da escola nos liberar para as férias de verão, ela me deu o fora por um garoto chamado Lew, que tinha vinte anos e trabalhava como mecânico na oficina do pai. A primeira qualidade dele, pelo que eu sabia, era ter um carro muito bonito. Usava sempre uma camisa branca, com um maço de Camel enfiado na borda dobrada da manga, e recostava-se no capô do seu Thunderbird, olhando de um lado para o outro e dizendo coisas do tipo "Oi, benzinho" sempre que passava uma mulher. Era um verdadeiro vencedor, se sabem o que quero dizer.
Bem, o baile do fim do ano letivo aproximava-se, e por causa dessa situação com a Ângela, no último semestre eu continuava sem uma namorada firme. Todo mundo no conselho estudantil tinha de comparecer - era obrigatório. Tive de ajudar a decorar o ginásio e fazer a faxina no dia seguinte - além disso, era uma ocasião muito divertida. Telefonei para duas garotas que conhecia, mas elas já tinham compromissos. Perto da última semana, as possibilidades começavam a ficar muito restritas. Reduziam-se àquelas garotas que usavam óculos fundo-de-garrafa e falavam ciciando, mas eu tinha de encontrar alguém. Que impressão ia causar aquilo? Eu seria o primeiro presidente do conselho estudantil até então a comparecer a um baile de fim de ano sem companhia. Acabaria sendo o sujeito que serve ponche a noite toda, ou limpa vômito no banheiro. Em geral, era isso que o pessoal sem par fazia.
Já em pânico, peguei o livro do ano anterior e comecei a folheá-lo à procura de alguém que talvez ainda não tivesse parceiro. Embora não achasse que teria muita chance, telefonei mesmo assim. Não deu outra, confirmou-se que eu estava certo. Não encontrei quem quisesse ir comigo. Acreditem, eu já começava a me sentir um especialista em rejeição. Minha mãe, que sabia o tempo todo o que eu estaca sofrendo, acabou entrando em meu quarto e sentando-se na cama a meu lado.
- Se você não conseguir um par, vou com você.
- Obrigado, mãe - falei, abatido.
Quando ela saiu, senti-me ainda pior que antes. Até minha mãe achava que eu não ia encontrar ninguém.
Aliás, tinha outro sujeito no mesmo barco. Carey Dennison fora eleito o tesoureiro e também continuava sem par para ir ao baile. Era daqueles caras com quem ninguém queria perder tempo, e o único motivo de ter sido eleito foi por ter concorrido sem adversário. Ele tocava tuba na banda, e todo seu corpo parecia fora de proporção, como se tivesse arado de crescer na metade da puberdade. Tinha uma barriga grande e braços e pernas desengonçados. Também tinha um jeito de falar com a voz esganiçada, e não parava de fazer perguntas: "O que você fez no fim de semana? Foi divertido? Viu alguma garota?" Sem esperar pela resposta, andava de um lado para o outro enquanto perguntava, e a gente tinha de ficar girando a cabeça para mantê-lo no campo visual. Juro, talvez tenha sido a pessoa mais irritante que já conheci na vida. Quando eu não tinha um encontro marcado com uma garota, ele ficava de plantão, disparando perguntas como um promotor transtornado.
Um dia eu estava folheando o livro do ano letivo, precisamente a seção dos alunos da série anterior, quando vi o retrato de Jamie Sullivan. Detive-me apenas por um segundo e logo virei a página, amaldiçoando-me por chegar a pensar naquilo. Passei a hora seguinte procurando alguém de aparência meio decente, mas não restava mais ninguém. Acabei voltando para o retrato da Jamie. "Ela não é feia", disse a mim mesmo, "e é muito boazinha." Na certa, diria sim.
Fechei o livro do ano. Jamie Sullivan? A filha de Hegbert? De jeito nenhum. Absolutamente, não. Meus amigos me assariam vivo. Mas, que alternativa? Sair com a mãe da gente ou limpar vômito?
Passei o resto da noite debatendo os prós e os contras do meu dilema, mas, no fim, a opção ficou óbvia até para mim. Eu tinha de convidar Jamie para o baile. Fiquei andando de um lado para o outro no quarto, pensando na melhor maneira de fazê-lo.
Foi então que me dei conta de uma coisa terrível, uma coisa muitíssimo assustadora. Carey Dennison na certa devia estar fazendo a mesma coisa que eu naquele momento. Na certa também estaria folheando o livro! Ele era uma aberração, mas também não era o tipo de sujeito que gostasse de limpar vômito. E se ele convidasse Jamie primeiro? Ela não recusaria; em termos realistas, era a única opção que lhe restava. Ninguém, a não ser ela, deixaria de ser execrada na companhia dele. Jamie provavelmente ouviria aquela voz esganiçada do Carey, veria a bondade irradiando do coração dele e aceitaria na hora, sem pestanejar.
Portanto, lá estava eu, sentado em meu quarto, frenético com a possibilidade de não contar sequer com Jamie para ir ao baile comigo. Confesso que mal dormi naquela noite. Planejara convida-la assim que acordasse na manhã seguinte, enquanto ainda tinha coragem, mas ela não estava na escola. Imaginei que estivesse trabalhando com os órfãos em Morehead City, como fazia todo mês. Alguns de nós tentavam se escafeder da escola usando essa desculpa também, mas Jamie era a única que conseguia convencer. Até a diretora sabia que ela lia para eles ou ensinava-lhes artesanato. Não saía de fininho para a praia, nem ficava de bobeira no Cecil's Dinner, nem nada semelhante.
- Já arranjou um par? - perguntou-me Eric, no intervalo de duas aulas.
Ele sabia muito bem que eu não tinha arranjado, pois, embora fosse meu amigo, gostava de pegar no meu pé de vez em quando.
- Ainda não - respondi -, mas estou trabalhando nisso.
Mais adiante no corredor, Carey Dennison mexia em alguma coisa dentro do seu escaninho. Juro que me lançou um olhar vidrado, quando achou que eu não estava olhando. Esse era o tipo de dia que a gente vivia.
Os minutos tiquetaqueavam devagar durante minha última aula. Da forma como imaginei, se Carey e eu saíssemos na mesma hora, eu conseguiria chegar à casa de Jamie primeiro. Comecei a tomar coragem e, quando a campainha tocou, saí da escola correndo a toda. Já tinha percorrido mais ou menos cem metros quando veio a câimbra. Logo, eu só conseguia andar segurando a perna, mas continuei em frente. Claudicando assim rumo a Beaufort, eu parecia uma versão ofegante do Corcunda de Notre-Dame.
Achei ter ouvido a risada esganiçada de Carey atrás de mim. Virei-me, enterrando os dedos na panturrilha para sufocar a dor, mas não o vi. Talvez ele estivesse cortando caminho pelo quintal de alguém. Aquele sujeito era escorregadio. A gente não podia confiar nele nem por um minuto.
Pus-me a cambalear ainda mais rápido ao longo do caminho e logo cheguei à rua de Jamie. Suava da cabeça aos pés e ofegava furiosamente. Alcancei a porta da frente da casa, levei um segundo para recuperar o fôlego e bati. Apesar da minha corrida febril, meu lado pessimista imaginou que seria Carey quem abriria a porta. Via-o sorrir para mim com um olhar vitorioso.
Mas não foi Carey quem abriu, e sim jamie; pela primeira vez na vida vislumbrei o que ela seria se fosse uma pessoa comum. Usava jeans e uma blusa vermelha. Embora continuasse com os cabelos presos atrás num coque, parecia mais informal que de hábito. Percebi que podia ser de fato bonita, se desse a si mesma uma oportunidade.
- Landon - admirou-se ela, segurando a porta aberta. - Que surpresa! Parece que andou se exercitando.
- Na verdade, não - menti. Felizmente, a câimbra desaparecera.
- Suou a camisa toda.
- Oh, isso? - Olhei para minha camiseta. - Não é nada. É que às vezes suo muito mesmo.
- De qualquer modo, vou fazer uma oração para você - ofereceu ela com um sorriso. Estava sempre orando por alguém.
- Obrigado.
Ela baixou os olhos e arrastou os pés por um momento.
- Bem, eu o convidaria a entra, mas meu pai não está em casa. Ele não permite garotos em casa na sua ausência
- Oh - falei, desanimado. - Tudo bem. Podemos conversar aqui fora, acho. - Se fosse à minha maneira, eu preferiria entrar.
- Aceita um refresco enquanto conversamos? - perguntou ela.
- Eu adoraria.
- Volto já.
Entrou, mas deixou a porta aberta. Deu uma rápida olhada em volta. A casa era pequena, mas bem-arrumada, com um piano encostado numa parede e um sofá na outra. Um pequeno ventilador oscilava no canto. Na mesa de centro viam-se livros com títulos como Ouvindo Jesus e A Fé é a Resposta.
Momentos depois, Jamie voltou com o refresco e nos sentamos em duas cadeiras no canto da varanda. Ela e o pai sentavam-se ali à noite, eu sabia, pois já os vira ao passar pela casa deles de vez em quando. Assim que nos sentamos, vi a Sra. Hastings, a vizinha do outro lado da rua, acenar para nós, Jamie acenou de volta, enquanto eu afastava minha cadeira para que a Sra. Hastings não visse meu rosto. Embora fosse convidar Jamie para o baile, eu não queria que ninguém - nem a Sra. Hastings - me visse ali, pensando na remota possibilidade de Jamie já ter aceito a proposta do Carey. Uma coisa era ir com Jamie; outra, ser rejeitado por ela em favor de um sujeito como Carey.
- O que está fazendo? - perguntou Jamie. - Vai ficar com a cadeira no sol.
- Gosto do sol.
Quase no mesmo instante, senti os raios me queimando através da camisa e me fazendo suar mais uma vez
- Se é isso o que quer - disse ela, a sorrir. - Então, o que queria falar comigo? - Levantou os braços e pôs-se a ajeitar os cabelos.
Respirei fundo, tentando adquirir confiança, mas ainda não conseguia fazer o convite.
- E aí - disse, em vez disso -, esteve no orfanato hoje?
Jamie me olhou, curiosa.
- Não. Meu pai e eu fomos ao consultório médico.
- Ele está bem?
Ela sorriu.
- O mais saudável possível.
Assenti com a cabeça e olhei para o outro lado da rua. A Sra. Hastings já voltara para dentro de sua casa e não vi ninguém mais na vizinhança. A barra afinal ficara limpa, mas eu ainda não estava pronto.
- O dia está lindo mesmo - comentei, tentando ganhar tempo.
- É, está.
- Quente, também.
- É porque você está no sol.
Olhei em volta, sentindo a pressão avolumar-se.
- Ora, aposto que não tem uma nuvem em todo o céu.
Dessa vez, Jamie não respondeu, e ficamos ali sentados, calados, por um momento.
- Landon - ela acabou dizendo -, você não veio aqui para falar do tempo, veio?
- Na verdade, não.
- Então por que está aqui?
Chegara o momento da verdade.
- Bem... eu queria saber se você vai ao baile de fim de ano.
- Oh... - ela disse, dando a impressão de que não sabia que existia tal coisa. - Eu realmente não tinha planejado ir.
- Mas e se alguém a convidasse, você poderia ir?
Ela levou algum tempo pra responder.
- Não sei - disse, afinal. - Acho que eu poderia ir, se tivesse a oportunidade. Nunca fui a um baile antes.
- São divertidos - apressei-me a dizer. - Não muito, mas divertidos.
Ela sorriu do meu fraseado.
- Eu teria de falar com meu pai, é claro, mas, se ele consentir, acho que poderia.
Na árvore ao lado da varanda, um pássaro pôs-se a cantar ruidosamente. Concentrei-me no som, tentando acalmar os nervos. Apenas dois dias antes, nem podia me imaginar pensando naquilo, mas de repente ali estava eu, enunciando as palavras mágicas:
- Bem, você gostaria de ir no baile comigo?
Vi que Jamie ficou surpresa com minha pergunta. Em vez de responder na hora, contudo, ela desviou o olhar por um longo momento. Senti um aperto imenso no estômago, porque imaginei que ela fosse dizer não. Visões de minha mãe, vômito, Carey Dennison inundaram-me a mente, e de repente me arrependi da maneira como me comportara com ela em todos aqueles anos. Não parava de me lembrar das vezes que a provocara ou ridicularizara pelas costas. Quando já me sentia péssimo por tudo aquilo, imaginando como conseguiria evitar Carey durante cinco horas, ela se virou e ficou mais uma vez de frente para mim.
Tinha um ligeiro sorriso no rosto.
- Eu adoraria - acabou dizendo. - Com uma condição.
Acalmei-me, esperando que não fosse alguma coisa horrível demais.
- Sim?
- Tem de prometer que não vai se apaixonar por mim.
Percebi que ela estava brincando pela maneira como riu, mas não deixei de exalar um suspiro de alívio. Sorri e dei-lhe minha palavra.
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Sexta-feira, Maio 27, 2005
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Jamie Sullivan, a filha de Hegbert, cursava a última série do ginásio, assim como eu, e já escolhera fazer o papel do anjo na peça - não que alguém mais chegasse a ter alguma chance. Isso, claro, tornava a peça especial naquele ano. Ia ser um grande acontecimento - talvez o maior até então -, pelo menos na cabeça da Srta. Graber. Ela era a professora de teatro, e já se entusiasmava com as possibilidades quando me encontrei pela primeira vez com ela na aula.
Eu não pretendia, na realidade, fazer curso de teatro naquele ano, mas era isso ou Química II. O fato foi que achei que ia ser moleza. Sem trabalhos, provas nem carteiras onde eu teria de decorar prótons e nêutrons. Que mais podia ser melhor para um aluno de última série? Parecia uma barbada.
A Srta. Garber era muito alta, 1,87m no mínimo, com flamejantes cabelos ruivos e uma pele clara que destacava as suas sardas, e uns quarenta e tantos anos de idade. Também era gorda - eu diria, francamente, que beirava os 115kg - e gostava de usar aqueles vestidos longos, largos, estampados, com cores fortes, usados pelas havaianas. Tinha óculos de aros de chifre e cumprimentava todo mundo com um "Olá" meio cantado na última sílaba. Era uma figura e tanto, claro, e solteirona, o que a tornava pior. Um homem, de qualquer idade, só podia ter pena de uma mulher como aquela.
Mas me perco em digressões.
Só no primeiro dia do curso de teatro notei uma coisa fora do comum. Embora o Ginásio de Beaufort não fosse grande, era muito bem dividido, meio a meio, entre homens e mulheres, motivo pelo qual me surpreendi quando vi que a turma era no mínimo 90% feminina. Contei apenas outro garoto, que no meu estado de espírito era uma boa coisa, e por um momento enrubesci com um pensamento do tipo: "Cuidado, meninas, aqui vou eu".
Tudo bem, eu não era o sujeito mais progressista do quarteirão.
A Srta. Garber trouxe à baila a peça de Natal e disse a todos que Jamie Sullivan ia ser o anjo naquele ano. Pôs-se a bater palmas na mesma hora - ela também freqüentava a igreja e todo mundo achava que andava atrás de Hegbert de um modo meio romântico. Na primeira vez que ouvi isso, imaginei que seria uma boa coisa os dois estarem velhos demais para poder ter filhos, pois se algum dia se juntassem...Imaginem...Como seria um filho translúcido com sardas? Todos tremiam só de pensar na idéia.
A Srta. Garber continuou batendo palmas até que todos nos juntássemos a ela, porque era óbvio que era isso que desejava isso.
- Levante-se, Jamie. Deixe que os outros vejam quem é você.
Assim, Jamie se levantou e virou-se, e a Srta. Garber pôs-se a aplaudir mais rápido, como se estivesse diante de uma autêntica estrela de cinema.
Ora, Jamie Sullivan era uma garota legal. De verdade mesmo. E Beaufort era tão pequena que só tinha uma escola elementar. Por isso fomos da mesma turma a vida toda; eu estaria mentindo se dissesse que nunca falei com ela. Na segunda série, ela se sentou ao meu lado o ano inteiro e chegamos até a ter algumas conversas, mas isso não queria dizer que eu andasse muito com ela nas horas livres. Quem eu via na escola era uma coisa; quem eu via depois da escola era outra, completamente diferente, e Jamie não constava, nem nunca constara, na minha agenda social.
Não que não fosse uma garota atraente, não me entendam mal. Não era horrorosa nem coisa que o valha. Felizmente, puxara à mãe, que, com base nas fotos que eu vira, não era de todo ruim. Mas tampouco era exatamente o que eu considerava atraente. Apesar de magra, com cabelos cor de mel e meigos olhos azuis, ela parecia meio...sem graça. E isso se a gente ao menos chegasse a notá-la. Jamie não ligava muito para aparências externas, porque vivia à procura de coisas como "beleza interior", e acho que por isso tinha aquele aspecto, pelo menos em parte. Pois desde que eu a conhecera, usava os cabelos num coque apertado, quase como uma solteirona, sem um pingo de maquiagem no rosto. Juntando isso ao seu habitual cardigã marrom e à saia escocesa, parecia sempre a caminho de uma entrevista para um emprego na biblioteca. A gente achava que era apenas uma fase e que ela acabaria perdendo aquele hábito, mas nunca perdeu.
Contudo, não era só a aparência de Jamie que a tornava diferente, mas também o modo como agia. Não circulava pelos pontos de encontro dos jovens, não ia ao Cecil's Diner nem a festas modorrentas com outras garotas. E eu sabia com certeza que nunca tivera um namorado.O velho Hegbert na certa sofreria um ataque cardíaco se ela namorasse. Mas mesmo que, por uma estranha reviravolta dos fatos, ele houvesse permitido, continuaria não tendo importância. Jamie levava a Bíblia a todo lugar que ia e, se sua aparência e Hegbert não mantivessem os garotos longe, a Bíblia com certeza o faria. Ora, eu gostava tanto da Bíblia quanto qualquer garoto nas portas da adolescência, mas Jamie parecia aprecia-la de uma maneira completamente estranha para mim. Não apenas ia à colônia de férias da Escola Bíblica todo agosto, mas também a lia no intervalo do almoço na escola. Em minha mente, isso simplesmente não era normal, mesmo sendo ela filha do pastor. Não importa onde sejam lidas, as epístolas de Paulo aos efésios não são nem de perto divertidas como flertar, se entendem o que quero dizer.
Mas Jamie não ficava só nisso. Por causa de toda aquela leitura da Bíblia, ou talvez por influência de Hegbert, achava que era importante ajudar os outros. Ofereceu-se como voluntária ao orfanato em Morehead City e era sempre encarregada de um ou outro levantamento de fundos. Era dessas garotas que arrancam o mato do jardim de alguém sem que lhe peçam, ou param o trânsito para ajudar crianças pequenas a atravessar a rua. Chegara a economizar a mesada para comprar uma nova bola de basquete para os órfãos. Em outras palavras, o tipo de garota que fazia o resto de nós parecer mau, e sempre que olhava em minha direção, eu não podia deixar de me sentir culpado, embora nada tivesse feito de errado.
Jamie tampouco limitava suas boas ações às pessoas. Se topasse por acaso com um animal ferido, também tentava ajudá-lo. Cães, gatos, esquilos, sapos - tanto fazia para ela O Dr. Rawlings, o veterinário, balançava a cabeça sempre que a via chegar à porta trazendo uma caixa com mais um bicho dentro. Ele tirava os óculos e limpava-os, enquanto jamie explicava o que acontecera à pobre criatura.
- Foi atropelado por um carro, Dr. Rawlings. Acho que estava nos desígnios do Senhor que eu o encontrasse e salvasse. Vai ajudar, não vai?
Com Jamie, tudo estava nos desígnios do Senhor. Isso era outra coisa. Sempre citava os desígnios do Senhor quando falava com a gente, independentemente do assunto. O jogo de beisebol foi cancelado por causa da chuva? Talvez fosse um desígnio do Senhor para impedir que algo pior acontecesse. Um teste-surpresa de trigonometria em que todos na sala se saem mal? Deve estar nos desígnios do Senhor nos lançar desafios. Em todo caso, vocês entendem a situação.
Depois, claro, havia Hegbert. Ser filha do pastor não podia ser fácil, mas ela fazia parecer a coisa mais natural do mundo. Costumava dizer:
- Sou abençoada por ter um pai como o meu.
Sempre que dizia isso, só nos restava balançar a cabeça perguntar de que planeta viera ela realmente.
Apesar, de todos esses golpes, porém, o que realmente me deixava enlouquecido era o fato de ela viver sempre muito alegre, não importando o que estivesse acontecendo a sua volta. Juro que aquela garota nunca disse uma coisa ruim sobre ninguém, nem sobre os colegas que não eram gentis com ela. Cantava para si mesma quando andava pela rua; acenava para estranhos que passavam nos carros. Às vezes as senhoras saíam correndo de casa quando a viam passar na rua, oferecendo-lhe refresco, ou alguma coisa recém-saída do forno - pão de abóbora, por exemplo. Parecia que todo adulto na cidade a adorava.
Eu pensava nisso quando Jamie se levantou diante de nós no primeiro dia do curso de teatro e admito que não estava muito interessada em vê-la. Mas, estranhamente, quando jamie se virou de frente para nós, tive uma espécie de choque. Ela usava uma saia escocesa com uma blusa branca e o mesmo cardigã marrom que eu vira um milhão de vezes, mas vi em seu peito dois caroços novos que juro que não estavam ali apenas três meses antes. Ela nunca usara maquiagem e continuava não usando, mas tinha um bronzeado, na certa da Escola Bíblica, e pela primeira vez estava...bem, quase bonita. Claro, rejeitei essa idéia no mesmo instante, mas ao passar os olhos pela sala, ela parou e sorriu direto pra mim, obviamente feliz por ver que eu estava na turma. Só depois saberia por quê.
Após o ginásio, eu planejava ir para a Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. Meu pai queria que eu ingressasse em Harvard ou Princeton, como alguns filhos dos outros congressistas, mas com minhas notas era impossível. Não que eu fosse mau aluno. Simplesmente não me concentrava nos estudos e minhas notas não estavam exatamente à altura de serem farejadas pelo pessoal das universidades de elite, consideradas as melhores. No meu último ano, era bastante duvidoso até mesmo que eu fosse aceito na Universidade da Carolina do Norte. Mas ela era a alma mater do meu pai, um lugar onde ele podia mexer os pauzinhos. Durante um dos seus poucos fins de semana em casa, ele surgiu com um plano de me dar um empurrão. Eu mal terminara a primeira semana de aulas do último ano ginasial, e sentávamo-nos à mesa de jantar. Ele viera passar três dias em casa por conta do fim de semana do Dia do Trabalho.
- Acho que você devia se candidatar a presidente do conselho estudantil - disse. - Vai se formar em junho e acho que isso causaria uma boa impressão no seu boletim. Aliás, sua mãe também acha.
Minha mãe confirmou com a cabeça, com a boca cheia de ervilhas. Às vezes ela gostava de me deixar sem graça, embora fosse carinhosa.
- Não tenho chance de ganhar - respondi.
Embora eu na certa fosse o garoto mais rico da escola, não era de modo algum o mais popular. Essa honra pertencia a Eric Hunter, meu melhor amigo. Ele liderava o time de futebol no campeonato estadual como zagueiro-astro. Era um garanhão. Até seu sobrenome, Hunter significava caçador.
- Claro que você pode vencer - disse meu pai. - Nós, os Carter, sempre vencemos.
- Mas e se eu não vencer?
Meu pai largou o garfo e me encarou com irritação. Embora fizesse calor dentro de casa, usava terno, o que o tornava ainda mais intimidador. A propósito, ele sempre usava terno.
- Acho - ele disse, pausadamente - que seria uma boa idéia.
Eu sabia que quando ele falava daquele modo a questão estava resolvida. Era assim na minha família. A palavra do meu pai era lei. Mas a verdade era que, embora concordasse, eu não queria ir. Não queria perder as tardes reunindo-me com professores depois da escola - depois da escola! - todas as semanas, durante o resto do ano letivo, bolando temas para danças ou decidindo de que cores deviam ser as flâmulas. De fato, isso era tudo que os presidentes de turma faziam, pelo menos na época em que eu estava no ginasial.
Mas também sabia que meu pai tinha razão. Se eu quisesse ir para a Universidade da Carolina do Norte, precisava fazer alguma coisa. Eu não jogava futebol americano, nem basquete. Não tocava um instrumento. Não me destacava na sala de aula. Droga, eu não sobressaía em quase nada. Cada vez mais desanimado, comecei a relacionar as coisas que eu de fato sabia fazer, mas, para ser honesto, não eram tantas assim. Sabia dar oito tipos diferentes de nós de marinheiro. Andava no asfalto quente mais rápido do que todos que eu conhecia. Conseguia equilibrar um lápis verticalmente durante trinta segundos - mas não achava que qualquer dessas coisas faria com que realmente me destacasse numa solicitação de matrícula para a faculdade. Assim, lá fiquei eu, deitado na cama acordado a noite toda, chegando aos poucos à deprimente compreensão de que não passava de um perdedor. Obrigado, pai.
Na manhã seguinte, fui ao gabinete da diretora e acrescentei meu nome à lista de candidatos. Concorriam mais duas pessoas - John Foreman e Maggie Brown. John era desses sujeitos que tiram fiapos de linha da nossa roupa quando falam com a gente. Era bom aluno; erguia a mão sempre que a professora fazia uma pergunta. Quando chamado a dar a resposta, quase sempre acertava, e girava a cabeça de um lado para o outro com uma expressão convencida no rosto, parecendo querer provar a superioridade do seu intelecto diante dos outros peões da sala. John não tinha a menor chance. Eu soube disso na hora
Já Maggie Brown era outra história. Também era boa aluna. Fora presidente da turma júnior do ano anterior. O único verdadeiro senão contra ela era o fato de não ser muito atraente, e naquele verão engordara mais 10 kg. Eu sabia que nenhum dos garotos votaria nela.
Após examinar a concorrência, imaginei que eu talvez tivesse uma chance de vencer, afinal. Todo o meu futuro dependia disso, portanto formulei minha estratégia. Eric foi o primeiro a concordar.
- Claro, vou mandar todo o time votar em você.
- E as namoradas deles, também? - perguntei.
Essa foi quase toda minha campanha. Claro, participei dos debates e distribuí aqueles panfletinhos batidos, tipo "O que farei se for eleito presidente", mas foi provavelmente Eric Hunter quem me levou aonde eu precisava estar. Como o Ginásio de Beaufort tinha cerca de quatrocentos alunos, obter a votação atlética era crucial. No fim, funcionou exatamente como planejei.
Fui eleito presidente do conselho estudantil por uma enorme maioria. Não fazia idéia dos apuros em que isso ia acabar me metendo.
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Como já disse, Beaufort era uma cidade do Sul bem típica, embora não tivesse uma história interessante. O pirata Barba Negra teve um dia uma casa na região. Acredita-se que seu navio, o Vingança da Rainha Ana, esteja enterrado na areia em algum lugar ao largo da costa. Beaufort percorreu um longo caminho desde a década de 1950, mas continua não sendo exatamente uma metrópole importante. Está e sempre estará e sempre estará entre as menores; quando eu era menino, mal lhe concediam um lugar no mapa. Para dar uma idéia, o condado a que pertencia cobria toda a parte leste do estado - cerca de 32 mil quilômetros quadrados - e nem uma única cidade de toda a região tinha mais de 25 mil habitantes. Pois bem, mesmo comparada a essas localidades, Beaufort ficava entre as menores. Tudo a leste de Raleigh e a norte de Wilmington, até a fronteira da Virgínia era o distrito que meu pai representava.
Acho que já ouviram falar do meu pai. Ele é uma espécie de lenda ainda hoje. Chama-se Worth Carter. Foi congressista durante quase trinta anos. Era um mandachuva e todo mundo o conhecia, todo mundo mesmo, inclusive o velho Hegbert.
Ora, Hegberth e meu pai não se davam nem um pouco bem, apesar de meu pai freqüentar o culto sempre que se achava na cidade - o que, pra ser franco, não era tão comum assim. Além de acreditar que os fornicadores haviam sido destinados a urinóis no inferno, Hegbert também achava que o comunismo era "uma doença que condena a humanidade à paganice". Embora "paganice" não seja uma palavra - não consigo encontra-la em nenhum dicionário -, a congregação sabia o que ele queria dizer. Também sabia que dirigia suas palavras especificamente ao meu pai, que ficava sentado de olhos cerrados, fingindo não ouvir. Meu pai fazia parte de um dos comitês da Câmara dos Deputados que supervisionava a -influência vermelha- supostamente infiltrada em todos os setores do país, inclusive defesa nacional, educação superior e até cultivo de tabaco. Vocês têm de se lembrar que isso foi durante a Guerra Fria. Os espíritos estavam exaltados, e nós, norte-carolinianos, precisávamos de alguma coisa para traze-la a um nível mais pessoal. Meu pai procurava fatos que eram irrelevantes para pessoas como Hegbert.
Quando ele chegava em casa após o serviço religioso, dizia alguma coisa assim:
- O reverendo Sullivan estava em rara forma hoje. Espero que você tenha ouvido a parte das escrituras em que Jesus fala dos pobres...
- Claro, papai, ouvi, sim.
Meu pai tentava acalmar as situações sempre que possível. Acho que era por isso que ficava no Congresso durante tanto tempo. O homem beijava os bebês mais medonhos existentes na humanidade e, no entanto, sempre tinha alguma coisa simpática para dizer. "É uma criança tão delicada", dizia, quando o bebê tinha uma cabeça gigantesca. Ou: "Aposto que é a menina mais carinhosa do mundo" se ela tivesse uma marca de nascença a lhe cobrir o rosto inteiro.
Certa vez apareceu uma senhora com um garoto numa cadeira de rodas. Meu pai olhou para ele e disse: "Aposto dez contra um que você é o garoto mais inteligente da sua sala".
E era! É, meu pai era fantástico nesse tipo de coisa. Estava entre os melhores, com certeza. E não era um homem tão ruim assim, não mesmo.
Mas não estava presente para mim, quando eu era menino. Detesto dizer isso, porque hoje as pessoas alegam esse tipo de coisas e usam-nas para justificar seu comportamento mesmo quando tinham o pai por perto: "Meu pai não me amava. Por isso me tornei dançarino de strip-tease". Não digo isso para justificar o que me tornei; digo simplesmente como um fato concreto. Meu pai passava nove meses fora durante um ano, morando a quase quinhentos quilômetros de distância, num apartamento em Washington. Minha mãe não o acompanhava em sua estada na capital, porque os dois queriam me criar "da mesma maneira" que haviam sido criados.
Claro, o pai do meu pai levava-o para caçar e pescar, lhe ensinou a jogar bola, aparecia nas festas de aniversário, todas essas pequenas coisas que contam muito antes da idade adulta. Meu pai, por outro lado, era um estranho, alguém que eu mal conhecia. Durante meus cinco primeiros anos de vida, eu achava que todos os pais moravam em outro lugar. Só quando meu melhor amigo, Eric Hunter, me perguntou no jardim-de-infância quem era aquele homem em casa na noite anterior, compreendi que alguma coisa não estava muito certa naquela situação.
- É meu pai - eu disse, orgulhoso.
- Oh... - surpreendeu-se Eric. - Eu não sabia que você tinha pai.
Foi, digamos, com um tapa na cara.
Assim, cresci sob os cuidados de minha mãe. Ora, ela era uma mulher bonita, carinhosa e gentil, aquela mãe com que sonha a maioria das pessoas. Mas não era, nem podia ser, uma influência na importante na minha vida, e esse fato, junto com a desilusão cada vez maior com meu pai, me fez virar uma espécie de rebelde, mesmo numa tenra idade. Meus amigos e eu de vez em quando saíamos escondidos tarde da noite e cobríamos as janelas dos carros com sabão, ou comíamos amendoim cozido no cemitério atrás da igreja, o que, na década de 1950, era uma daquelas coisas que faziam os outros pais balançarem a cabeça e dizer:
- Não queira ser igual àquele Carter.
Seja como for, meu pai e Hegbert não se davam bem, mas não era só por causa da política. Não; parece que se conheciam de longa data. Hegbert era uns vinte anos mais velho que meu pai; antes de ser pastor, trabalhava para o pai do meu pai. Embora passasse muito tempo com meu pai, meu avô era um patife nato. Foi ele quem fez a fortuna da família, mas não quero que o imaginem como a espécie de homem que se esforçava como um escravo cuidando do seu próprio negócio, trabalhando com diligência para vê-lo crescer e prosperando devagar com o passar do tempo. Nada disso. Começou como vendedor de bebidas clandestino durante e acumulou riqueza durante toda a Lei Seca, contrabandeando rum de Cuba. Depois passou a comprar terras e contratar meeiros para cultiva-las, mas ficava com 90% do que os meeiros ganhavam em seu plantio de tabaco, e emprestava-lhes dinheiro sempre que precisavam, a juros exorbitantes. Claro, nunca pretendeu reaver o dinheiro. Privava-os do direito de resgatar qualquer terra ou equipamento que possuíssem. Mais tarde, no que chamou de seu "momento de inspiração", inaugurou um banco chamado Carter Banking & Loan. O único banco além dele no raio de dois condados pegara fogo misteriosamente e, com o início a Depressão, jamais reabriu as portas. Embora todo mundo soubesse o que de fato acontecera, nunca se disse uma palavra, com medo de retaliação. O banco não foi o único prédio a ser consumido misteriosamente pelas chamas na época.
As taxas de juros do meu avô eram de fato abusivas e ele aos poucos foi amealhando mais terras e propriedades, à medida que as pessoas deixavam de pagar os empréstimos. Quando a Depressão golpeou com mais força, ele executou dezenas de lojas em todo o condado, retendo ao mesmo tempo os proprietários originais como assalariados e pagando-lhes apenas o suficiente para mantê-los onde estavam, pois não tinham para onde ir. Dizia que quando a economia melhorasse venderia a eles as novamente, e as pessoas sempre acreditaram nele. Contudo, nunca, nem uma única vez, cumpriu a promessa.
Quisera eu poder dizer que ele acabou tendo uma morte terrível, mas não teve. Morreu aos 98 anos, dormindo com a amante em seu iate nas Ilhas Caimãs. Um senhor final para um homem desses, não é? A vida, aprendi, jamais é justa. Se nos ensinassem alguma coisa na escola, devia ser isso.
Mas, voltando à história...Assim que percebeu o grande patife que meu avô era de fato, Hegbert deixou de trabalhar para ele e ingressou no sacerdócio. Depois voltou para Beaufort e começou a pregar na mesma igreja que freqüentávamos. Passou os primeiros anos aperfeiçoando seu número de fogo e enxofre com sermões sobre os gananciosos, o que não lhe deu muito tempo para faze qualquer outra coisa. Tinha 43 anos antes de se casar e 55 quando lhe nasceu a filha, Jamie. Sua mulher, um fiapo de gente, vinte anos mais moça que ele, sofreu seis abortos antes da menina nascer. Morreu no parto, deixando Hegbert viúvo, para criar a filha sozinho.
Daí, claro, a história por trás da peça de Natal.
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Segunda-feira, Maio 16, 2005
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Em 1958, Beaufort, na Carolina do Norte, localizada no litoral perto de Morehead City, era igual muitas outras cidadezinhas do Sul. Um daqueles lugares em que a umidade no verão aumentava tanto que a simples caminhada para pegar a correspondência fazia a gente ansiar por uma chuveirada. As crianças andavam descalças de abril até fins de outubro, debaixo dos carvalhos cobertos de musgo espanhol. As pessoas acenavam dos seus carros sempre que viam alguém na rua, quer o conhecessem ou não, e o ar cheirava a pinho e maresia, um aroma exclusivo das duas Carolinas. Para muitos que moravam na região, a pesca comum em Pamlico Sound ou a de camarões no Rio Neuse era meio de vida. Viam-se barcos atracados em qualquer lugar para onde se olhasse no litoral navegável de Intracostal Waterway. Só havia três canais de televisão, embora isso não fosse importante para os nativos do local. Em vez disso, nossa vida se concentrava em torno das igrejas, que eram 18 só nos limites da cidade. Tinham nomes como Solar da Fraternidade da Igreja Cristã, Igreja dos Perdoados, Igreja da Expiação. E depois, claro, as igrejas batistas. Nos meus tempos de garoto, era de longe, a religião mais difundida na região. Havia igrejas batistas em quase toda esquina da cidade, embora cada uma se considerasse superior às demais. Entre elas, a Batista do Livre-Arbítrio, a Batista do Sul, a Congregação dos Batistas, a Batistas Missionários, a Batistas Independentes - bem, isso já dá uma idéia.
Naquela época, o grande acontecimento do ano era patrocinado pela igreja batista do centro da cidade - a do Sul, se querem mesmo saber - em conjunto com o ginásio. Todo ano, na Casa de Espetáculos de Beaufort, encenava-se o préstito de Natal, que na verdade era uma peça escrita por Hegbert Sullivan, um pastor que fazia parte da igreja desde que Moisés dividira o Mar Vermelho. Tudo bem, talvez ele não fosse tão velho assim, mas o bastante par a gente ver através de sua pele. Era uma pele meio úmida, pegajosa e translúcida. Seus cabelos eram tão brancos quanto o pêlo daqueles coelhinhos que a gente vê nas lojas de bichinhos de estimação na época da Páscoa.
Ele escreveu uma peça chamada O Anjo de Natal porque não queria continuar apresentado o antigo clássico de Charles Dickens, Conto de Natal. Na mente de Hegbert Sullivan, o rabugento e irascível Scrooge era um pagão que só alcançava a redenção porque via fantasmas, não anjos - e, de qualquer modo, quem poderia dizer que eles haviam sido enviados por Deus? E quem poderia dizer que Scrooge não reverteria aos seus modos pecaminosos se eles não tivessem sido diretamente por Deus? A peça não nos diz exatamente no fim - joga mais ou menos com a fé e tudo mais -, mas Hegbert não confiava em fantasmas que não fossem de fato enviados por Deus, e esse era o grande problema com o conto de Dickens.
Por isso, decidiu pôr sua habilidade à prova escrevendo sua própria peça. Redigira seus sermões a vida toda. Alguns deles, tínhamos de admitir, eram realmente interessantes, sobretudo quando ele falava da "ira de Deus se abatendo sobre os fornicadores" e toda aquela coisa gostosa. O sangue dele fervia mesmo quando falava dos fornicadores, vocês nem imaginam. Era a sua verdadeira obsessão. Quando éramos meninos, meus amigos e eu nos escondíamos atrás das árvores e gritávamos "Hegbert fornicador!" sempre que o víamos andando pela rua, e dávamos risadinhas nervosas feito um bando de idiotas, como se fôssemos os seres mais inteligentes e ousados que já haviam habitado o planeta.
O velho Hegbert parava, atônito e ficava rubro, como se houvesse acabado de beber gasolina. Olhava com esforço para um lado e para o outro, estreitando os olhos à nossa procura, mas logo depois, com a mesma rapidez, voltava a ficar lívido, exibindo de novo aquela pele de peixe. Gente, era um senhor espetáculo.
Então ficávamos escondidos atrás de uma árvore, e Hegbert (pensando bem, que tipo de pais dá ao filho o nome de Hegbert?) parado, à espera que nos denunciássemos, como se achasse que seríamos imbecis a esse ponto. Tapávamos a boca com as mãos para não rir alto, mas de algum modo ele sempre nos localizava. Virava-se de um lado para o outro e então parava, com o olhar fuzilante sobre nós e atravessando a árvore.
- Sei que são vocês, Landon Carter, e o Senhor também sabe!
Deixava aquilo ressoar por um ou dois minutos e acabava retomando seu rumo. Durante o sermão daquele fim de semana ele nos encarava e dizia qualquer coisa assim:
- Deus é misericordioso com as crianças, mas as crianças também precisam ser merecedoras.
E nos abaixávamos nos bancos, não pôr constrangimento, mas para esconder um novo ataque de risos. Hegbert não nos entendia em absoluto, o que era realmente estranho, pois tinha um filho e tudo mais. E também tinha uma filha. Sobre isso, porém, falarei depois.
De qualquer modo, como eu dizia, num ano Hegbert escreveu O Anjo de Natal e decidiu apresentar a peça em lugar da história de Dickens. A peça em si não era ruim, o que surpreendeu a todos. É a história de um homem que perdeu a mulher alguns anos antes. Esse sujeito, Tom Thornthon, é um verdadeiro religioso, mas teve crise de fé após sua mulher morrer de parto. Cria a filha pequena sozinho, mas não tem sido o melhor pai, e o que a menina quer realmente de presente de Natal é uma caixinha de música especial, com um anjo gravado na tampa, cuja fotografia ela recortou de um velho catálogo. O sujeito procura longa e arduamente o presente, mas não o encontra em lugar algum. Então, na véspera de Natal, continua procurando e, ao percorrer uma rua e olhar para dentro das lojas das vitrines, depara com uma mulher estranha, que nunca viu antes, e ela promete ajuda-lo a encontrar o tal presente da filha. Primeiro, porém, eles ajudam um sem-teto (naquela época, aliás, eram chamados vagabundos). Em seguida param num orfanato para visitar algumas crianças e depois uma velha solitária que só quer um pouco de companhia na véspera de Natal. Por fim, a misteriosa mulher pergunta a Tom Thornton o que quer de Natal e ele diz que gostaria de ter a mulher de volta. Ela o leva até a fonte da cidade e manda-o ficar olhando apara a água, eu encontrará o que está procurando. Quando ele fita a água, vê o rosto da filhinha e cai em prantos ali mesmo. Enquanto soluça, a misteriosa senhora desaparece correndo. Tom Thornton procura-a, mas não a encontra em parte alguma. Assim, ele volta para casa, com as lições do dia desfilando por sua mente. Entra no quarto da filha e a imagem da menina dormindo o faz compreender que ela é tudo que lhe restou da mulher, e mais uma vez rompe em lágrimas, porque sabe que não tem sido um bom pai para ela. Na manhã seguinte, como por magia, a caixinha de música lá está ao pé da árvore de Natal, e o anjo nela gravado é idêntico à mulher que ele vira na noite anterior.
Portanto, a peça de Hegbert não era tão ruim assim, realmente. Verdade seja dita, as pessoas choravam baldes de lágrimas sempre que a viam. Todos os anos, a venda do ingresso se esgotava e, devido a essa popularidade, Hegbert acabou tentando mudá-la da igreja para a Casa de Espetáculos de Beaufort, eu tinha muito mais lugares. Quando eu estava no último ano do ginásio eram duas apresentações com casa cheia.
Entendam, Hegbert queria que jovens representassem a peça - alunos do último ano do ginásio, não o grupo teatral. Ele achava que seria um bom aprendizado, antes que os formandos partissem para a faculdade e se vissem frente a frente com todos os fornicadores. Era esse tipo de cara, sempre querendo nos salvar da tentação. Queria que soubéssemos que Deus está lá nos vigiando mesmo quando estamos longe de casa e, se confiarmos Nele, estaremos sempre bem. Era uma lição que eu acabaria aprendendo, embora não tenha sido exatamente Hegbert quem me ensinou.
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Quando eu tinha 17 anos, minha vida mudou para sempre.Sei que algumas pessoas se espantam quando digo isso. Olham-me de um modo estranho, tentando compreender o que poderia ter acontecido nesse passado, embora eu raras vezes me dê ao trabalho de explicar. Como morei aqui a maior parte da vida, não acho que tenha de dar explicações, a não ser em meus próprios termos, e isso levaria mais tempo do que a maioria das pessoas está disposta a me conceder. Minha história não pode ser resumida em duas ou três frases. Nem comprimida numa coisa bem-arrumada e simples que as pessoas logo entenderiam. Apesar de decorridos quarenta anos, as que continuam morando aqui e me conheceram naquele ano aceitam minha falta de explicação sem quaisquer perguntas. Minha história, em certos aspectos, é a história delas, porque foi uma coisa que todos vivemos do começo ao fim.
Fui eu, entretanto, quem a viveu mais de perto.
Tenho 55 anos, mas ainda hoje me lembro de tudo o que se passou naquele ano, nos mínimos detalhes. Revivo-os muitas vezes em minha mente, trazendo-os de volta à vida, e percebo que, ao faze-lo, sempre sinto uma estranha mistura de tristeza e alegria. Há momentos em que gostaria que fosse possível girar o relógio para trás e eliminar toda a tristeza, mas tenho a sensação de que, se o fizesse, também a alegria desapareceria. Por isso acolho as lembranças como me chegam, aceitando-as todas e deixando que me guiem sempre que posso.
Hoje é dia 12 de abril do último ano antes do novo milênio. Dou uma olhada em volta ao sair de casa. O céu está encoberto e cinzento, mas quando sigo pela rua percebo que os cornisos e as azaléias já começam a florescer. Fecho um pouco o zíper da jaqueta. A temperatura está baixa, embora eu saiba que será apenas uma questão de semanas para que o céu cinzento dê lugar àqueles dias que fazem da Carolina do Norte um dos locais mais lindos do mundo.
Com um suspiro, sinto tudo retornar. Cerro os olhos e as lágrimas começam a escorrer em marcha à ré, marcando devagar o tempo de trás para diante, como os ponteiros de um relógio a girar em sentido contrário. Como que pelos olhos de outra pessoa, vejo-me rejuvenescendo. Vejo meus cabelos mudando de grisalhos para castanhos; sinto as rugas em volta dos olhos desaparecerem, os braços e as pernas se enrijecem com músculos. As lições que aprendi com a idade tornam-se indistintas e minha inocência vai voltando, à medida que se aproxima aquele ano memorável.
Então, como eu, o mundo começa a mudar. A desordenada extensão suburbana é substituída por terras agrícolas; as ruas do centro fervilham de gente. Os homens usam chapéus; as mulheres, vestidos. No prédio do tribunal, mais adiante, badala o sino da torre...
Abro os olhos e paro. Estou em frente à igreja batista e, quando olho para ela, sei exatamente quem sou.
Sou Landon Carter e tenho 17 anos.
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